RELATOS DE VIDA (ParteII)

19/julho/07

    A partir da década de 90, ocorreu a minha formatura. O meu auto patrocínio me levou a metas mais ousadas. Começaram as viagens internacionais, o Peru era uma meta a ser alcançada, principalmente de ondas grandes.

 

O Peru com sua fantástica história e cultura, eram um grande atrativo. Machu Pichu, 1993.

    A primeira viagem com destino ao país dos Incas, foi organizada por vários amigos, entretanto, no final, somente eu, Marcelo Fabris e o Roberto Coin embarcamos. O Roberto tomou o maior porre no avião, que quando chegamos em La Isla , estava quebrando de 6 a 8 pés e ele tomou o maior caldo. O pico que mais me chamou atenção foi Punta Rocas, pois sempre tinha onda e com tamanho sempre superior aos outros locais.

Marcelo Fabris, Marcelo Teixeira(Símio), Roberto Coin(Betinho) e Mauro Escobar, Punta Rocas, 1993.

Punta Rocas, 2003.

 

    Junta-se a trip o Marcelo Teixeira(Símio) de Imbé e seu amigo Guto, representante da Hang Loose no RGS e morador de Gramado, que estavam no mesmo hotel e tinham chegado a alguns dias . Guto era um cara muito bom astral e passou ao grupo toda a sua experiência da região. O Teixeira estava em grandes dificuldades, pois há alguns dias, em Cerro Azul , tinha sido atropelado por um paulista dentro do mar, que provocou um corte absurdo em toda a solo do pé e não prestou qualquer assistência, tão pouco uma carona ao hospital mais próximo para ser socorrido. As condições eram precárias, ocorreu vários pontos sem anestesia. Estava completamente impossibilitado de entrar na água. Por sorte alguns dias depois encontrei o “paulista” e um amigo em Punta Rocas. Me senti na obrigação de tomar uma atitude, pois me colocava na situação de ver toda uma viagem perdida por um brasileiro idiota. Fui direto intimidar o sujeito, que teve confiscado o relógio, todo o dinheiro da carteira e a roupa de borracha. Bens materiais não pagam este tipo de situação, no entanto, este cidadão pensará duas vezes em situação semelhante.

As incríveis linhas de Punta Rocas.

Cerro Azul e a dificuldade para entrar no pico.

 

     Cerro Azul, foi uma onda que me chamou muita atenção, pela facilidade de chegar ao pico, se entra com água pelo lado da praia, com água no tornozelo, se pode conseguir inúmeras manobras, terminando numa plataforma, onde as pessoas ficam assistindo a sua performance.

Punta Rocas, o expresso rolando.

    Entre os brasileiros que estavam hospedados próximos rolava a maior desconfiança por sermos gaúchos, tendo um capixaba dito a seguinte expressão : “Porto Alegre não tem nem onda e no Rio Grande não rola onda”, aquilo me deixou irado, mas fiquei frio. Tinha um carioca metido a big rider, que desembarcou sem dinheiro e vivia as custas de vender biquíni e canga para o mulherio. Após alguns dias Pico Alto começa a quebrar, Capilé, hoje praticante de Town in, queria saber quem era que estava já no pico, para a surpresa era o Roberto Coin, que aceitou tamanho desafio com uma 7.6. Tive que ir para Kontiki, pois minha maior prancha não era apropriada. A turma que debochava estava a perseguir uma ondinha menor, para fugir do sufoco. Em Punta Rocas , foi registrado o Carioca tendo que me “enrabar”, pois não tinha competência para o outside. Com 1,95 de pé, sobrava ainda onda em cima e baixo. Some-se a isso, o Marcelo Teixeira, depois de vários dias no estaleiro, não agüenta e cai no mar. O resultado não poderia ser outro, a noite os pontos abrem e começa a dar febre. Vou direto para o aeroporto para embarcar o amigo, que passa o maior sufoco. Guto o acompanha como um verdadeiro “brother”.

    A partir daí acontece um fato que tem conseqüência nos anos vindouros. O Roberto Coin, consegue uma namorada local e fica completamente apaixonado. A moça é filha do Ministro do Comércio do Peru e as portas são definitivamente abertas. Após o retorno, o Roberto já pensa em voltar para sua amada e residir no país. O seu sonho se concretiza e tive inúmeras oportunidades de voltar , com um amigo já estabelecido. Era só ligar, para o Roberto ir para o aeroporto me resgatar, já com o boletim das ondas devidamente atualizado.

Cerro Colorado, com tamanho médio.

...já com a direita quebrando, com bom tamanho.

    Voltando aos assuntos de nossa terra, cumpre relatar, as múltiplas agressões , oriundas dos pescadores baseados na plataforma. Me lembro que seu Presidente, em uma oportunidade depois de arremessar várias chumbadas em minha direção e proferir todo o tipo de ofensa, chama a Brigada Militar, que quer me prender pois me negava a sair da ponta do “T” na Malvina. Depois de várias tentativas fui obrigado a sair pelo mar junto a estátua da “Santa”. Não satisfeito, um dia depois no estacionamento em frente a plataforma, eis que surge o tal “presidente”, que com uma garrafa tenta atingir a um metro de distância, sem sucesso, o Hector, surfista que possuía apartamento ali em frente. A reação do mesmo, foi um direto no rosto deste cidadão que foi direto a nocaute. Segundo informações , após aquele episódio renunciou a seu mandato.

    Em 1994, nasce a Danielle minha filha e mais ondas no Peru. Me lembro de estar no píer, com uma micro onda no “banheiro” no mês de março e no outro dia desembarcar com ondas entre 8 e 10 pés , no qual tomei o maior sufoco.

Por do sol em La Isla.

    Vale registrar a dedicação na manutenção das minhas pranchas, por parte do Clóvis e Cleber da Proibt Wave, além de algumas pranchas por eles finalizadas com shape do amigo Roberto. Legítimos representantes de Tramandaí, que muito evoluíram com o tempo.

    Voltando ao Peru, gostaria de relatar a minha “detenção” no aeroporto de Callao. O país se encontrava em situação delicada, havia estado de guerra com o Equador, ficando prejudicado os deslocamento na busca as ondas no norte do país. Quando do embarque no aeroporto, adentrei na pista, e me dirigi com uma máquina fotográfica ao encontro aos aviões de guerra, que estavam estacionados ao lado militar da base. Imediatamente fui cercado por militares com armas apontadas, que me detiveram e me conduziram para local recluso. Após várias explicações e horas de espera, tive a máquina e filme confiscados. Após louvável interferência da saudosa Varig, fui embarcado com escolta no primeiro vôo da companhia.

O rumo do aeroporto para mais um retorno.

    Por fim o romance do Roberto não prosperou, tento voltado a sua origem. No entanto as oportunidades a mim surgidas em função deste fato não me saem da memória.

Cerro Azul, o início da sessão.

Cerro Azul o final da onda.

 

Punta Rocas, estou na primeira onda e Roberto na segunda.

Roberto Coin , Puerto Fidel.

 

Roberto Coin , Puerto Fidel.

Secret, que rolava na beira da estrada, no meio do deserto.

 

La Isla , com interferência.

    O novo milênio surge com novos desafios. Minhas atividades profissionais começam a me deslocar para o eixo Santana do Livramento, Rio Grande e Chuí. O sentimento fronteiriço aflora e a adaptação aos usos e costumes tem que serem procedidas. Já me encontro com uma idade mais avançada em que se pensa duas vezes para tomar certas atitudes. No mar não tive dificuldade em me readaptar, primando pelo respeito ao próximo não tive problemas. A região de Rio Grande possui uma onda mística junto a um navio naufragado de nome Altair, que quebra com qualidade algumas vezes durante o ano. Em funções do tamanho dos molhes a ondulação é barrada e várias vezes fiquei pensando como deveria estar na Malvina/Backdoor.

O místico pico do navio Altair, que esta naufragado a alguns quilômetros do Cassino.

    Uma outra opção de qualidade é São José do Norte, praia do Mar Grosso e junto ao molhe. Com vento sul rola uma boa direita. Entretanto a região possui um isolamento estratégico , com sérias dificuldades de deslocamento. Mudar esta situação seria alterar a sua riqueza histórica e cultural. Já no Chuí, é possível o intercâmbio com os irmãos uruguaios e sua ondas.

Com altura avantajada fico pequeno diante do potencial de La Moza

    Um fato marcante , adotado pelo Uruguaios, que deveria ser adotado em nossa terra, é demonstrada pelo monumento confeccionado a um dos pioneiros do surf local, na praia de Los Botes, o qual presto o meu maior respeito. No Rio Grande Sul vários surfistas que já tombaram no passado e recentemente não sofreram as homenagens devidas, é um exemplo a ser seguido.

 

O monumento dos uruguaios a surfista desbravador falecido, deve ser seguido , Los Botes

    O surf no Uruguai evoluiu bastante desde as minhas primeiras visitas, existe hoje surfistas de todas as faixas etárias. Os equipamentos brasileiros são muito bem conceituados e podem ser adquiridos com bons preços no Chuí. As pranchas uruguaias mostraram evolução com o tempo. A grande reclamação dos hermanos é a falta de cordialidade em algumas praias brasileiras, como o Rosa e em Torres. A malvina e backdoor são desconhecidos pelos mesmos. Não tive qualquer incidente na região nestes últimos anos, as coisas vieram ao natural. Além do atrativo das praias, a gastronomia local, a dedicação ao registro dos monumentos históricos tais como Fortaleza de Santa Tereza e Forte de São Miguel são um forte atrativo. O nascer do sol, sentado nos bancos com vista para o mar em La Pedrera é maravilhoso.

    O site do Paipo é muito bem estruturado, com ótimas fotos. Mandei algumas fotos prestadas no final de 2006, que foram prontamente respondidas pelo Juanto, que viraram a foto do dia. Quando no chat existente on line , onde pessoas que não me conheciam, usaram as seguintes expressões : “poroguero”, “mamadera”, “maracanaso”, “roubava o alimento dos uruguaios com a pesca predatória por pescadores brasileiros” e “que teriam sido mal tratados nas praias brasileiros”, o Juanto prestou a minha defesa e o problema foi superado facilmente.

Onda do dia no site.

Foto constante no site

 

    A onda em La Moza é temperamental, ela não mostra as suas garras constantemente o que gera uma certa desconfiança daqueles “recém chegados”. A entrada do pico em dias grandes, requer um cuidado todo especial para se jogar das pedras. Presenciei muitos gaúchos de Rio Grande e Pelotas pagarem os seus pecados por falta de experiência. Neste meio tempo nasce minha outra filha Isabella, a quem muito me orgulho.

foto26 e 27

Praia do Cerro Chato.

Nestes dias a entrada pelas pedras requer cuidado todo especial, La Moça

    Na minha ótica o esporte nunca teve uma visão de competição, mas sim como filosofia de vida para enfrentamento dos seus desafios. Tive que trabalhar muito para bancar tal pensamento, mas não me arrependo. As indagações aqui expostas com certeza vão suscitar os seus personagens do esplendor vivenciado, que os mais jovens devem ter conhecimento. As fotos aqui apresentadas são meros registros amadores da época.

    No entendimento que “o saber é melhor que a ignorância, a história melhor que o mito”, devemos fazer uma análise profunda do que fomos e o que somos para saber o que seremos no futuro. Tal analise se faz ante aquela indagação do jovem surfista no começa deste relato, que desconhece a herança do local e esta a forjar o seu próprio espaço, como outros fizeram no passado. Mas uma coisa posso dizer com toda a certeza, agora que estou longe, não troco onda no mundo por um dia clássico na Malvina/Backdoor.

Por:Mauro Sergio Pacheco Escobar